Um dia que poderia ser igual a tantos outros, um autocarro e uma tablete de chocolate. Entre receitas e valores calóricos (que em casos como este não deveriam existir) há algo que espreita timidamente de uma das pontas do papel que tão delicadamente embrulha a única desgraça que me faz perder a cabeça. Delicada e sorrateiramente, enquanto me apercebo do que se trata, há um sorriso que involuntariamente me foge por entre os dedos. Leio a primeira frase e uma gargalhada tímida perde-se no ar "Espero que desta maneira te consiga surpreender!" Raios me partam se não o conseguiste...
O regresso a casa é todo ele feito com um sorriso rasgado, apalermado, mimado e mesmo assim certo de qual seria a resposta.
Pensei o quão incrível teria sido se hoje estivesse contigo e se tivesse desembrulhado o chocolate à tua beira. Que muito provavelmente te teria dado um grande abraço e de alguma maneira teria sussurrado a resposta. Pensei isso durante 2 segundos e depois apercebi-me que a melhor maneira não era senão aquela que a pessoa com quem partilhava o lugar poderia apreciar, se não estivesse tão embrulhada nos seus próprios dilemas. Porquê? Porque me deixou reagir à minha maneira, à minha vontade e, muito provavelmente, de uma maneira mais sincera do que se estivesse a ser observada. Porque não sou de demonstrar muito facilmente o que me inquieta, da mesma maneira que não sou espontânea no que toca a dizer a primeira coisa que nos vem à cabeça em situações como esta. Porque (tal como a maioria dos que racionalmente já caíram na tentação de se entregarem à mercê daquilo que acreditaram ser o caminho certo para 'a tal' pessoa) já não sou a mesma criança de há 5 anos atrás a quem facilmente roubavam um sorriso matreiro e um suspiro. Porque, já não tendo certezas de nada nem acreditando em contos de fadas, tenho medo de cair, de fazer alguém cair, de me perder no tempo enquanto tudo não se transforma, mais uma vez, em algo que já fez sentido não passando, no presente, de algo vomitado da boca para fora. Mesmo assim... costuma-se dizer que quem não arrisca não petisca.
Tu (que por muito óbvio que pareça aos olhos dos outro e por muito incrível que pareça para nós) dás-me vontade de arriscar. Consegues perceber o que te tento dizer? Claro que consegues...
Disseste sentir-te um 'garoto de primária' por o fazeres desta maneira. Pois bem, meu querido, decidi responder-te nessa mesma linguagem que tão tristemente parecemos esquecer quando achamos que somos adultos. Só porque me fazes bem e me fazes ser tão lamechas...
(o chocolate de culinária saber-me-á melhor ainda depois de dias como o de hoje!)